Tuesday, 16 July 2019

Verão Montês


Neste verde Verão montês, sopra um vento que, decerto, passou pelo mar!
Traz a frescura da espuma e  com ela, o doce aroma das espigas maduras que ele penteia nos campos aqui atrás, onde se escondem os tímidos veados!
Os caminhos cobertos de erva têm a maciez chã da areia; os aviões revolvendo o céu, sarapintado de alvas nuvens qual  a orla das ondas, recordam o rugir do mar.
Flores silvestres bailam em mil cores, como guarda-sois onde se resguardam abelhas felpuras; de longe, o silvo das máquinas agrícolas é qual a ronca envolta em névoas no quebra-mar, os motores dos tractores ronceiros têm o vagar e a constância das dragas na barra.
Nas vinhas  verdejantes, amadurecem as uvas; cerejeiras soberbas, framboesas e miúdos morangos silvestres, ruboram e perfumam a orla das frescas veredas na floresta. É uma pródiga abundância rural! Até já há amoras e os cães atiram com marmelos, maçãs, peras e nozes ainda verdes mas já caídos.
Nesta hora matutina, chego ao meu lugar altaneiro, onde me aguarda o banco amplo que range tosco, ao sentar-me.
É um secreto dia de praia, aqui em cima!
Penso, logo pasmo. Assim  me demoro, como um pescador ante o panorama, pescando  nos meus pensamentos que a brisa estival amacia.

Tuesday, 15 January 2019

Fim de Ano em Dó Menor


Demito o ano, torcendo-me sobre o passado, intacto apenas na minha memória sinistra.
Canhota como sou, mesmo querendo, não olvido; faço tudo ao contrário, penso e sinto de revés; têm-me por torcida, piúrsa, algo esquerda, obstinada.
Seja! É para o lado que durmo melhor! E sim, ando muito à bolina, remo contra a maré, malho contra o tempo.
A medo, abri as malas velhas e de facto, apenas extraí trapos, farrapos: meros traços, incautamente ali ajuntados, dos nossos solarengos anos desvanecidos. São estas as únicas vestes que restam?!... Se sou fria, indiferente, tenho os meus apegos. Choro, baixinho, para com os meus; não estou em minha casa e as paredes têm ouvidos.
Que me deu a mim, em tempos, para tão prestemente emprestadar assim o passado, remetendo-o para mãos afinal incautas, senão ávidas mas em que parvamente me fiei e que agora, dele se lavam? Pelos vistos, valores mais altos se levantam que as minhas relíquias.
Uma coisa é certa: a partir de agora, na minha casa também já não se fia!
Suspeito que mais remanescências, restarão; que não se terão alienado e que jazem, apartadas, em baús, à espera que caiam no esquecimento, à nossa revelia. Sei de quem arrume memórias por cores e tamanhos mas diga que, sem querer, se desfez delas...
Há quem creia conhecer-me melhor que eu. Se fosse tudo aquilo porque me tomam, era tanta gente que nem cabia numa só pessoa e corpo.
Se como dizem, sou contumaz, também sou franca: afinal, na música e na vida, (quase) tudo se diz mas é preciso encontrar o bom tom. Portanto, quando, contra o que era esperado, ousei indagar decentemente do paradeiro de tal passado, um trio de palavras frias, ocas e sisudas me demitiu, acelerando a minha partida. Em vez das relíquias, trouxe comigo o travo daquela frieza e silêncio que tanto dizem. Afastei-me, como que olhando através duma lente: aqueles rostos, antes íntimos, se converteram em estranhos, aquela morada, em casa alheia. Ignoro se depois, tumultos interiores ou exteriores, se desenrolaram detrás daquelas vidraças.
Vim refugiar-me no meu canto distante, entre os incondicionalmente meus.
Nada tenho a perder e não me dou por vencida, pois da memória e de outros álbuns do passado me socorro. Devo o melhor, a perseverança e vitória a quem incondicionalmente me ama e, a esses, não desfiro feridas.
Mas o ano ainda não se finou.
Para ajudar a purgar o passado, chegam ordens telegráficas para apagar álbuns alheios e comuns, imagens, testemunhos: alguns tão frescos, outros recentes, tantos de outrora...
Não roubo almas a ninguém e, após a lição acima, cuido ser meticulosa e fazer sem demora os trabalhos de casa, nem custa nada! Folheio os álbuns, rebobino o passado e extingo, um a um, vultos, sombras, rostos, sorrisos, olhares, eliminando dias semanas, anos, tempos, encontros, lugares. Quase lhe tomei o gosto e assim, ao menos, os fardos ficam lá longe, em Dezembro. Um fim acre para dias felizes mas esses, também ninguém mos tira!
Doze badaladas. Passo a fronteira para bom porto, na inefável companhia dos meus e de tudo e todos que merecem ser recordados. Janeiro que venha e quando eu lá chegar, escrevo!

Monday, 17 December 2018

O Tal Bom Natal


- Bom Natal, só?!... Isso até soa mal, não quer dizer quase nada...  É átono, cansado, acanhado, apático, receoso!

- É que feliz, já não se diz... e abençoado, nem se fala! Até há quem ache piroso, para poetas; é para cartões de boas festas. Isso de altos valores e palavras pródigas, já era!

- Que hei-de eu dizer? Agora usa-se mais o seráfico santo Natal... 
Bom Natal, realmente, não tem mal... é decente, passa despercebido. É, tal qual bom dia, uma mera formalidade fugidia. 
Mas cá a mim, aborrece-me, faz sono, é como um satisfaz num ponto, pronto!

- Bem, nos dias que correm, se o Natal for bom, já não é nada mau... até já é um pau! Desejar feliz Natal, é descabido, exagerado.... é de perguntar, se não se faz nada por menos!

- Pois eu acho que, ficar-se por bom Natal, é parco e triste! Mais vale estar calado... É mania desta língua em que até o Natal, padece de mediania. Bom Natal é simples inércia, apatia mental, preguiça verbal. Quem fala assim, não pesa o que diz, é quase gago, apenas balbucia palavras sem peso, vazias!...
Tão frouxo acho o bom Natal que não chega cá nada, é uma frase sem eco, sem reverberação.
Votos são outra coisa! Votos, dignos desse nome, não têm papas na língua; vêm do âmago, da volição, são autêntica convicção.Votos autênticos, são um manifesto da alma, são generosamente desbocados, magnânimos, desembuchados!

Eu cá, não faço nada por menos: o Natal há-de ser abençoado, inequivocamente feliz...

A todos, feliz Natal!


Tuesday, 18 September 2018

A Pé

Escrevo a pé. 
Não tenho queda para poeta,
Apenas deixo ser o que é!
Nada sei fazer,
Além de ser, 
Pasmar, caminhar.
Sou parada, bronca
Fico especada,
O cão farisca
- Como eu.
Esta hora é só minha!
Saio de casa sem rumo certo,
Não sei senão matutar,
Trago a minha sacola,
Ando à caça do tempo
Na neblina matutina.
Não tenho jeito para poeta
Sou de poucas palavras,
Deixo estar o que está
E ser o que é.

Saturday, 7 July 2018

Modo Menor


Modo Menor

Em vez de cair no sono,
Mergulhei no escuro,
Num furacão sem fundo.

O pesadelo funde-se com o sonho,
E após a noite em branco,
Arrasto pelas horas fora,
A fadiga que invade o dia.

E assim me dissolvo no nada,
Outrora espaço,
Antes claro e agora,
Turvo torvelinho.

Ando à deriva no
Mar cinza e revolto,
Que invade e tinge o céu de breu.

Tenho o olhar surdo, sujo,
Os ouvidos cegos,
A mente dormente.
O ruído venceu a música,
A náusea, a alegria,
As trevas vazaram para o dia.

Quero mas não posso,
Penso mas não sou,
O que era, já não é,
Sabia e esqueci.
O ontem subtrai o amanhã,
Vomito o passado,
No presente, estou ausente,
Declino o futuro.

Queria apagar-me,
reduzir-me a ser, 
Apenas respirando, boiando,
De olhar suspenso no ar!
 Quiçá assim visse
Passar as núvens e
 Volver o sol no azul...

Tuesday, 13 March 2018

Passé




Chego aqui e fico tão esquecida como o pátio lúgubre nas traseiras pardas deste bairro ignoto, escondido além da linha-férrea e do arvoredo, nesta terra de província!

Detrás das vidraças do rés-do-chão às escuras, adivinho o olhar, por vezes vigilante, por vezes alheio, do mestre que me aguarda. Vencendo a indecisão, abro a porta de entrada e, com um cumprimento contido à figura sisuda que assoma ao fundo do corredor frio, deponho o saco no cadeirão vetusto a cheirar a bafio.

Vou a falar com os meus botões: absorta em considerações, tenho, de me preparar, por inconciliável que seja, para as surpresas da hora que se segue! Nunca sei bem com que contar, que me reserva a aula, como me vou sair... Tanto acho que desisto, como me digo que não posso levar o mestre à letra! Há aulas em que, como na infância, o que ele diz me entra por um ouvido e sai pelo outro! Senão, nunca mais voltava!... Quem esquece, não envelhece, lá reza um adágio! E ao final de cada lição, inexplicavelmente, a reverência nobre e atenta com que o mestre me despede, lá o absolve sempre de tudo...

Empertigado, o mestre senta-se no cadeirão do corredor, calçando os sapatos maleáveis e gastos.  Não diz palavra; penso que pensa que não é preciso... Também não me apoquenta. Ao menos, o silêncio não mente facilmente!  Mas o mestre tem muitos quês e senãos, os seus dias sim, e dias não. É imperioso e dado a caprichos; diz que é da profissão, ou talvez da nação...

Já tenho dado com ele ali, sentado no sofá, o seu olhar escuro, deposto algures no passado. Assim, de queixo apoiado na mão, perde um pouco a soberba e, na sua calvície e sombra, parece mais velho, resignado,  algo cansado; não sei se de mim, do presente ou futuro, ou simplesmente, de tudo... Talvez por isso, ou devido à escuridão, tenha levado tempo a detectá-lo nos cartazes e fotos de outrora que são o único adorno, o único cuidado posto no corredor inóspito!

Entro no vestiário farrusco e fecho a porta atrás de mim, o mestre desce os degraus para a aula... Nos escassos minutos em que me apronto, irrompe da sala ao lado uma música rodopiante, estonteante e inconfundivelmente russa e com ela, o presto tamborilar de passos no chão, sugerindo os desenvoltos arabescos da coreografia desenfreada que o mestre enceta... só falta arejar o rançoso corredor com infindáveis piruetas!

Naqueles singulares momentos mágicos de bravura, decerto que a escola, o bairro, a cidade e tudo o que a transcende, se transforma num enorme cenário cintilante... Está no centro do universo e o tempo revolve até aos dias em que o mestre bailava entre estrelas cadentes, nos palcos do mundo! A menos que a arte lhe dê mais pernas, com tantos passos que bicam o soalho, decerto que o solista tem companhia secreta!... Desconfio assim que, feitos com ele, os demais bailarinos dos cartazes do corredor se escapam para o palco, por fátuos momentos!

Intrigada, abro sorrateiramente, a porta do vestiário, a ver se apanho uma fracção do efêmero espetáculo, ao menos de esguelha, através do espelho... Mas qual quê!... Mal transponho o vão da porta, tudo se esfuma, fica tudo parado e quedo, como se nunca tivesse sido! O corredor tumular e os astutos bailarinos, imperturbáveis como marionetas, lá no quadro, nunca se descaem! O mestre quedo, aguarda-me altivo e impassível como sempre, no canto da sala, de costas para o espelho e mão pousada na barra. Não sei se, sob o nariz torcido, lhe desvendo afinal, um trejeito de humor no lábio embicado...

Tuesday, 13 February 2018

Não Senhora!




Em criança, certas senhoras
Criam agradar-me e diziam:
“Sim senhora, estás quase uma senhora!”
E eu, queda e algo arreliada,
Pensava cá com os meus botões
Que tinha de estar de atalaia,
Pois não queria ficar como elas!...


Tinha de as cumprimentar,
Já se vê!
Sabiam todas a creme...
Uma delas, de voz penetrante,
Mal eu lhe chegava a cara,
Descarada, beliscava-me
As bochechas com firmeza!


Andavam de mise 
Tufada e laca
Maquilhadas,
Aperaltadas e cheirosas,
Muito parecidas,
De óculos de sol
Tipo mosca,
Tapando-lhes o olhar!
No Inverno, bem abafadas, tolhidas.
De saltos altos,
Caminhar importante,
Empertigadas na roupa justa,
Pregadinhas,
Não podiam despentear-se, nem sujar-se!


Com tais poses e indumentárias,
Não eram para se
Sentar no chão,
Correr, pular
Andar de baloiço,
Triciclo, bicicleta,
Andar ao vento e chuva,
Dar mergulhos no mar,
Fazer castelos na areia,
Bolos de lama!

Não eram pessoas
Para brincadeiras e
Nem sequer queriam
Que saltasse nas poças de água!


Se ao menos gostassem
De bonecos,
De fazer desenhos, pintar,
Inventar histórias!...
Mas não...
É que nem pasmar podiam!

Eram indiferentes a tais ninharias.
Não se entretinham com miudezas,
Não reparavam na a poeira a dançar
Ao sol que entra pela janela,
Nos cortinados levantando-se
Na sala, com a corrente de ar,
A ouvir a chuva cair....


Em Lisboa, viam as montras da Baixa
Admiravam tecidos, fazendas, vestidos.
Cuidavam conversar, entre amigas!
De cozinha, dos filhos
Diziam “Esta criança não come nada!”
“Ai, que frio! Não achas?”
“Ai sim? Que maçada!...
Ai, não? Ah, pois!
Repetiam elas todos os dias
Desinteressantes,
Sem graça, sem filosofias.


E eu na minha inocência,
Quase cria que as senhoras, coitadas,
Tinham nascido ou ficado
Assim, já muito cedo,
Vestidas e arranjadas e tudo
Enfadonhas,
Não por querer, claro,
Mas sei lá porque artes
Ou triste engano do passado!


Algumas, moderadamente interessadas,
Inquiriam "Já andas na escola?
Tens boas notas?
Gostas do colégio?"
Eu sorria, anuía mas pensava “Não!”
Outras diziam
“Então? já sabes o que queres ser,
Quando fores grande?”
“Eu!” pensava...
“Que pergunta!” Cismava e continuava
“Eu!... Acaso não chega??...
Não está bem, ser quem sou?
Terei eu de fingir ou de me desfazer
Noutra que não sou?...
Numa senhora destas, talvez?”
Nã... eu cá... não, senhora!