Ouvi hoje o Mark Knopfler a tocar e cantar o Sultans of Swing.
Tanto
se ouvia que nunca lhe prestara muita atenção. Foi refrescante!
Não
importa se é mainstream... É prova que não são precisos 15-20 min. de
solos e choradeiras de guitarra (a fazer render o peixe, como diria o
meu Pai…) para um músico mostrar que é bom guitarrista.
Se não
me engano, Aristóteles dizia que uma obra de arte tem de ter proporção -
foi das poucas coisas que retive da estética. Sempre apreciei música de
ida e volta, até ao middle eight e regresso, daí a minha predilecção
pelos Beatles e pelas melodias bem exploradas e bem acabadinhas,
devidamente moduladas de McCartney – bem se vê que cantou num coro
litúrgico!
Não sei se Sultans of Swing também tem 16 compassos
mas não tem uma nota a mais – nem a menos. É excelência, perfeição,
virtuosismo puro, fluência, soberania.
Um bom músico não maça; um bom
artista, músico, escritor, não precisa de se repetir. Lembrou-me o
Hendrix, Little Wing.
Thursday, 16 April 2015
Thursday, 26 March 2015
Haja Coração!
Ante tão inefável egoísmo,
Acometem-me revolta e
indignação.
Porquê, não pergunto, pois não
há razão!
Num soluço atordoado, escondo
a cara nos punhos cerrados. Não!
Fica dor, amargura, ficam
jovens esperanças derramadas, vidas ceifadas pelo caminho.
Sobra o pranto infindo da
multidão que, entre as montanhas ermas, alvas e frias,
fita muda os céus, onde as
estrelas esmoreceram.
Também eu digo, agora, que não
sei onde o mundo vai parar!
Foi-se-lhe a alma...
É que costumava haver coração!
Era o pêndulo,
Ouvíamo-lo, regulava-nos o
rumo,
Vencia obstáculos, lutas e
montanhas.
Desfazia nós, segredava preces,
Era alento, amor e compaixão,
Baixo fundamental,
Dava a mão,
Fazia bem, sem olhar a quem
E brando, tomava sempre o
partido
De quem sofria!
26.3.2015 – após desastre
aéreo de German Wings
Wednesday, 4 March 2015
Desalinhos do Ser
Que sei eu?...
Não posso ser senão eu
E porém, nunca fui o que sou
Mas nunca fui, nem serei o que queria,
Nem jamais serei de novo o que fui outrora.
Preferia ser igual, fiel a mim mesma mas
Sou desigual, inconstante, transiente
E ainda assim, cansada de tanto mim.
E entre o ontem e o hoje, estou como sempre,
entregue a mim própria.
Estou?... Sou, pronto!... Aqui, assim, agora! Ponto.
Como?...
Quem sabe de si, não escreve.
São estas as linhas com que me descoso,
É este, o desalinho que me descreve.
Monday, 1 December 2014
Apontamento
Apontamento
Gosto do silêncio. Este, não engana, fala por si, consente,
deixa os outros entregues a si mesmos. As palavras em demasia ensurdecem. É mais fácil enganar com palavras.
Saturday, 5 July 2014
Correr
Correr é uma
canseira,
Não tem pés nem cabeça.
Corro por tudo,
Corro para nada!
Correr é
prosaico, chão, corrente.
Corro porque sim,
Sem quê, nem para
quê,
Sem interesse e
sem meta!
Correr não leva a
lado nenhum...
Correr sem razão
de ser,
Lembra-me a
filosofia!
Quem corre por
gosto, descansa,
Seus tormentos
espanta!
Pousa o olhar na
paisagem, solta os pensamentos...
Mas correr por
gosto também cansa
E assim se
abranda a marcha!...
Quem corre, arfa,
Para, inspira,
respira!...
A correr, acerto
o passo
E contas, comigo!
Olho para trás,
detenho-me,
Erro, corrijo o
curso, descaminho-me.
Quem corre,
segue, não persegue!...
Vou sem mapa, sem
curso,
É que a corrida, é o caminho!
É uma correria pela
vida afora,
Repetida e sem
fim,
Fita no perpétuo horizonte
Que mudamente se
altera.
Quem corre, não
degenera!...
Quem corre, perde
tempo...
Quem corre, nem
tem tempo,
Nem sequer sabe
do tempo!
Quem corre, discorre,
Esquece-se de si!...
Quem corre é dono
de si,
E senão, é apenas dono do espaço
E do cão, ladino,
a seu lado!
O meu tempo é outro:
É o mau tempo, é o
bom tempo,
Frio, ou ardente,
O das estações da
vida,
Da madrugada ao
ocaso,
Das chuvas,
geadas, neves,
As poças, hoje
cristalinas,
amanhã turvas, depois
geladas!...
O meu tempo é o da paisagem,
Desnuda, nos
rigores do inverno,
Que se muda e se veste,
De opulência e
fartura
Com os calores do
ano!
É o sol excelso,
aberto,
Cintilando na basta
coroa das árvores.
Ando nas nuvens,
vivo na lua!...
A floresta, é o
tecto dos meus pensamentos,
Corro com pés bem
assentes na terra,
E o ritmo dos
meus passos
Dita a cadência
da minha escrita,
No trilho que me
guia.
A minha música
vem dos pássaros,
Da água na fonte,
do regato e do vento,
Vem da sinfonia de papoilas,
Centáureas e margaridas
Acenando entre as
espigas douradas das searas!
É a harmonia do
balir das ovelhas,
E mugir das vacas
nos pastios,
Do reguingar das
cabras entre os arbustos,
Dos motores,
algures no bosque, dos lenhadores.
Quero correr, não
quero crescer!
Baloiçar-me, nos
toros do caminho,
Atirar pinhas ao
céu,
Para o cão
apanhar!
Detemo-nos a
mirar
As lebres silentes
Na erva tenra dos
atalhos,
Os esquilos nos
abetos,
Olhando os cervos
elegantes,
Galgando as
moitas à desfilada!
Receio, porém, os
javalis
Que felizmente,
Até ver, nunca vi!...
Escuto os pica-paus,
Estremeço, com o
súbito esvoaçar
Em surdina, das
aves de rapina,
Com as gralhas e
corvos
Importunos que agitam as silvas!
Subo a correr,
Desço a
passear...
Quem corre, tem
vagar,
Vai de cabeça no
ar,
Sabe das
fragrâncias dos lugares,
Dá com os morangos
silvestres
Ocultos entre
folhas rasteiras e tenras,
Na orla dos
caminhos.
Quem corre, vai
vagabundo
De mãos a abanar,
Desfruta da
abastança
Dos frutos
maduros,
Das amoras gordas
e framboesas coradas.
Quero correr,
repousar,
Demora-me a
cismar,
A escrever, a
desenhar,
À beber, à sombra viçosa
Das cerejeiras carregadas,
Colher pêssegos
E uvas bravas,
Que crescem pelos
muros de xisto
De vinhas
abandonadas...
Depois maçãs,
peras
Nozes, castanhas
e quem sabe,
cogumelos!...
E como tudo o que
passa,
Eu apenas perduro,
subsisto,
Correr nem é
comigo...
Porque afinal quem
corre,
Não sou eu... é o
tempo!
Monday, 16 June 2014
Desamor Retribuído
Desamor Retribuído
O amor não
correspondido é mera quimera, é quando muito paixão.
É lírico, presta-se a fitas, a dramas e óperas... Um amor não retribuído é tão belo e romântico,
uma tentação, vício, é solidão de estimação! É desesperado, cego, teimoso, absurdo,
uma ilusão!...
Porque quem não
ama, não retribui, também não se presta, não se oferece ao amor! Sim, para amar uma pessoa, é
preciso que ela o consinta, que se deixe amar e não venerar, ou admirar... E se
aquela, porém, amar magnanimamente outrem, não animará o amor de mais ninguém!
Muitos há, ainda,
tão enamorados de si próprios, tão estupendos, ensimesmados e sem coração que, qual
o amante não correspondido, também se bastam a si próprios e, de tanto amor
próprio, dispensam o amor dos demais.
Enfim, que boa
notícia!... o amor não retribuído não
tem razão, é um equívoco, mentira, nutre-se a si mesmo, não merece a pena e
afinal... não é... pois não?
Friday, 1 November 2013
Pátio das Galinhas
Com os pés a
balouçar da descomunal cadeira de verga, tentava a todo o custo arrastá-la para
a frente, segurando-me ao tampo de mármore da mesa mas esbarrava quase sempre
nos seus pés, ou encalhava no empedrado do chão. Na
esplanada do Pátio das Galinhas, acabava
por beber a laranjina de joelhos no assento, até ter de ceder o meu lugar a uma
pessoa crescida. Eu cá, antes queria uma pinhoada, ou um pirulito...
Eram mornas e
descuidadas, as tardes passadas naquele pátio abrigado, entre
as fachadas caiadas, detrás do gradeamento em ferro forjado, assente num murete
de pedra. Pelo imponente pórtico de cantaria trabalhada, ornamentado com duas
lanternas, chegavam mães aprumadas com crianças vestidas de branco pela mão,
empurrando carrinhos de bebé que atravancavam a esplanada. Atrás, as avós ataviadas
apertavam as bochechas dos meninos e acenavam às primas janotas, com
exclamações afectadas.
Detrás do balcão, a máquina de café silvava, no
pátio cheirava a galões e torradas; os criados de mesa esmeravam a coreografia
num elegante volteado, alçando bandejas sobre os chapéus e penteados dos
fregueses, depondo entre eles os refrescos, batidos e pasteis, contornando
ardinas submissos e os engraxadores servilmente curvados, perante senhores
hirtos e abotoados.
Diante da entrada amontoava-se a juventude
estupenda, rapazes em trajes de ténis balouçando raquetes, espanhóis de cabelos
lustrosos e perfumados, raparigas morenas e ruidosas. Era um alegre convívio,
cena imortalizada num palco perpétuo e exíguo, onde nunca fazia calor nem frio,
maciamente abrigado de todos os ventos e marés, findas as missas e partidas de
ténis, em tardes de nortada, touros e matinée.
E no sossego e descuido em que ando agora, no meio
de estranhos, sinto-me como a criança de outrora, entre os adultos ufanos.
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