Monday, 24 October 2022

O que Diz o Silêncio

 Será ouvir,

Ou surdo,

O calar?

 

Será empatia,

Terapia,

Ou apatia,

O ficar quedo?

 

Serão falar,

Ou antes mudas,

As palavras vácuas e

Consoantes,

Quais quintas musicais?

 

É que a conversa descartável,

Fiada, de consenso... ou sem senso,

É um alívio;

Não aquenta, nem arrefenta,

Cai sempre bem:

Que o céu é azul,

Que o mar tem ondas,

E a areia, grãos,

É mesmo assim,

É sempre verdade!

 

Fora isso...

Que oculta a máscara

Parda do silêncio?...

Receio?

Prudência?

Ou sentença?!

 

Quem cala,

Contenta-se.

Não se consente,

Não se define,

Não sabe bem,

Não se sabe se sente.

Trai, fere,

Grita pela calada,

Nada se lhe pode apontar,

E lá de vertical... nada tem!

Sunday, 21 August 2022

Sem Nome

Sem Nome


Dizem eles „nós“,

Já não nos incluem;

Somos agora 

Outros quaisquer.

Passámos a estranhos,

Estrangeiros, 

Forasteiros,

Nem vistos, nem achados,

Sem voto na matéria!


Ou a minha terra de outrora

mudou de casa,

Ou esta de terra…

Portanto,

Desnasço agora,

Descaso-me,

Desterro-me,

Da terra no mar 

Que se foi ao ar.


Da casa de outrora,

Fecharam-me a porta na cara

E, de portadas cerradas,

Ela se aparta, qual jangada

À deriva

No tempo e espaço…

Fica pouso, 

Paragem

Mas não morada;

 É passagem

Evanescente

Que areias falsas, movediças

Furtam pela calada.


De tantas Marias na terra

Levaram-me até a graça!

Arranjaram outra

A quem servem minhas vestes,

Uma de melhor nota,

De falas mansas

Que se pôs a jeito,

Sem provocar

dores de parto

Ali pronta para troca!


Passem eles bem.

Eu cá dei à sola e

De âmago convulso

coração atado

E alma às costas,

Mudei de porto e apelido.


Entre nós, aqui,

Valhem-me os meus,

Suas mãos, corações,

Suas asas e velas,

Remando, rimando 

Comigo,

Pois que me acolhem 

De braços abertos

E sem condições,

Em seu seguro abrigo!



 

 



Tuesday, 16 March 2021

Credo de um Liberal às Direitas


Creio num só Mercado, global e todo-poderoso

Criador da oferta e da procura

De todas os entes e gentes negociáveis.

 Creio numa só economia, global

Concebida por Adão Ferreira, nascida no Reino Unido,

Amamentada pelos bancos e consumo desenfreado.

Mercado sem pecado,

Verdade da realidade,

Doutrina amoral e verificada

Gerada e malcriada

Por ela, todo o negócio é legitimado.

E por nós homens, para nossa riqueza

Encarnou pelo espírito humano

No seio da mãe América

Invadindo a Europa

E se fez lei.

Também por Marx foi crucificado, sob Lenine e Estaline

Estalou e foi enterrado.

Ressuscitou no século seguinte

(E já não era sem tempo!),

Tombando o muro de Berlim

Erguendo o facho da Liberdade!

De novo há-de vir em sua glória

Para julgar intelectuais e ecologistas

E o seu ranho não terá fim.

Creio no Espírito humano, senhor que move a economia,

e precede o mercado;

e com o mercado

é adorado e glorificado:

Creio no mercado uno, santo, caótico e desregulado.

Professo um só remédio para calar os esquerdistas

Espero a ressurreição de Thatcher

E da sociedade aberta que há-de voltar. América.

Tuesday, 16 July 2019

Verão Montês


Neste verde Verão montês, sopra um vento que, decerto, passou pelo mar!
Traz a frescura da espuma e  com ela, o doce aroma das espigas maduras que ele penteia nos campos aqui atrás, onde se escondem os tímidos veados!
Os caminhos cobertos de erva têm a maciez chã da areia; os aviões revolvendo o céu, sarapintado de alvas nuvens qual  a orla das ondas, recordam o rugir do mar.
Flores silvestres bailam em mil cores, como guarda-sois onde se resguardam abelhas felpuras; de longe, o silvo das máquinas agrícolas é qual a ronca envolta em névoas no quebra-mar, os motores dos tractores ronceiros têm o vagar e a constância das dragas na barra.
Nas vinhas  verdejantes, amadurecem as uvas; cerejeiras soberbas, framboesas e miúdos morangos silvestres, ruboram e perfumam a orla das frescas veredas na floresta. É uma pródiga abundância rural! Até já há amoras e os cães atiram com marmelos, maçãs, peras e nozes ainda verdes mas já caídos.
Nesta hora matutina, chego ao meu lugar altaneiro, onde me aguarda o banco amplo que range tosco, ao sentar-me.
É um secreto dia de praia, aqui em cima!
Penso, logo pasmo. Assim  me demoro, como um pescador ante o panorama, pescando  nos meus pensamentos que a brisa estival amacia.

Tuesday, 15 January 2019

Fim de Ano em Dó Menor


Demito o ano, torcendo-me sobre o passado, intacto apenas na minha memória sinistra.
Canhota como sou, mesmo querendo, não olvido; faço tudo ao contrário, penso e sinto de revés; têm-me por torcida, piúrsa, algo esquerda, obstinada.
Seja! É para o lado que durmo melhor! E sim, ando muito à bolina, remo contra a maré, malho contra o tempo.
A medo, abri as malas velhas e de facto, apenas extraí trapos, farrapos: meros traços, incautamente ali ajuntados, dos nossos solarengos anos desvanecidos. São estas as únicas vestes que restam?!... Se sou fria, indiferente, tenho os meus apegos. Choro, baixinho, para com os meus; não estou em minha casa e as paredes têm ouvidos.
Que me deu a mim, em tempos, para tão prestemente emprestadar assim o passado, remetendo-o para mãos afinal incautas, senão ávidas mas em que parvamente me fiei e que agora, dele se lavam? Pelos vistos, valores mais altos se levantam que as minhas relíquias.
Uma coisa é certa: a partir de agora, na minha casa também já não se fia!
Suspeito que mais remanescências, restarão; que não se terão alienado e que jazem, apartadas, em baús, à espera que caiam no esquecimento, à nossa revelia. Sei de quem arrume memórias por cores e tamanhos mas diga que, sem querer, se desfez delas...
Há quem creia conhecer-me melhor que eu. Se fosse tudo aquilo porque me tomam, era tanta gente que nem cabia numa só pessoa e corpo.
Se como dizem, sou contumaz, também sou franca: afinal, na música e na vida, (quase) tudo se diz mas é preciso encontrar o bom tom. Portanto, quando, contra o que era esperado, ousei indagar decentemente do paradeiro de tal passado, um trio de palavras frias, ocas e sisudas me demitiu, acelerando a minha partida. Em vez das relíquias, trouxe comigo o travo daquela frieza e silêncio que tanto dizem. Afastei-me, como que olhando através duma lente: aqueles rostos, antes íntimos, se converteram em estranhos, aquela morada, em casa alheia. Ignoro se depois, tumultos interiores ou exteriores, se desenrolaram detrás daquelas vidraças.
Vim refugiar-me no meu canto distante, entre os incondicionalmente meus.
Nada tenho a perder e não me dou por vencida, pois da memória e de outros álbuns do passado me socorro. Devo o melhor, a perseverança e vitória a quem incondicionalmente me ama e, a esses, não desfiro feridas.
Mas o ano ainda não se finou.
Para ajudar a purgar o passado, chegam ordens telegráficas para apagar álbuns alheios e comuns, imagens, testemunhos: alguns tão frescos, outros recentes, tantos de outrora...
Não roubo almas a ninguém e, após a lição acima, cuido ser meticulosa e fazer sem demora os trabalhos de casa, nem custa nada! Folheio os álbuns, rebobino o passado e extingo, um a um, vultos, sombras, rostos, sorrisos, olhares, eliminando dias semanas, anos, tempos, encontros, lugares. Quase lhe tomei o gosto e assim, ao menos, os fardos ficam lá longe, em Dezembro. Um fim acre para dias felizes mas esses, também ninguém mos tira!
Doze badaladas. Passo a fronteira para bom porto, na inefável companhia dos meus e de tudo e todos que merecem ser recordados. Janeiro que venha e quando eu lá chegar, escrevo!

Monday, 17 December 2018

O Tal Bom Natal


- Bom Natal, só?!... Isso até soa mal, não quer dizer quase nada...  É átono, cansado, acanhado, apático, receoso!

- É que feliz, já não se diz... e abençoado, nem se fala! Até há quem ache piroso, para poetas; é para cartões de boas festas. Isso de altos valores e palavras pródigas, já era!

- Que hei-de eu dizer? Agora usa-se mais o seráfico santo Natal... 
Bom Natal, realmente, não tem mal... é decente, passa despercebido. É, tal qual bom dia, uma mera formalidade fugidia. 
Mas cá a mim, aborrece-me, faz sono, é como um satisfaz num ponto, pronto!

- Bem, nos dias que correm, se o Natal for bom, já não é nada mau... até já é um pau! Desejar feliz Natal, é descabido, exagerado.... é de perguntar, se não se faz nada por menos!

- Pois eu acho que, ficar-se por bom Natal, é parco e triste! Mais vale estar calado... É mania desta língua em que até o Natal, padece de mediania. Bom Natal é simples inércia, apatia mental, preguiça verbal. Quem fala assim, não pesa o que diz, é quase gago, apenas balbucia palavras sem peso, vazias!...
Tão frouxo acho o bom Natal que não chega cá nada, é uma frase sem eco, sem reverberação.
Votos são outra coisa! Votos, dignos desse nome, não têm papas na língua; vêm do âmago, da volição, são autêntica convicção.Votos autênticos, são um manifesto da alma, são generosamente desbocados, magnânimos, desembuchados!

Eu cá, não faço nada por menos: o Natal há-de ser abençoado, inequivocamente feliz...

A todos, feliz Natal!


Tuesday, 18 September 2018

A Pé

Escrevo a pé. 
Não tenho queda para poeta,
Apenas deixo ser o que é!
Nada sei fazer,
Além de ser, 
Pasmar, caminhar.
Sou parada, bronca
Fico especada,
O cão farisca
- Como eu.
Esta hora é só minha!
Saio de casa sem rumo certo,
Não sei senão matutar,
Trago a minha sacola,
Ando à caça do tempo
Na neblina matutina.
Não tenho jeito para poeta
Sou de poucas palavras,
Deixo estar o que está
E ser o que é.