Escrevo a pé.
Não tenho queda para poeta,
Apenas deixo ser o que é!
Nada sei fazer,
Além de ser,
Pasmar, caminhar.
Sou parada, bronca
Fico especada,
O cão farisca
- Como eu.
Esta hora é só minha!
Saio de casa sem rumo certo,
Não sei senão matutar,
Trago a minha sacola,
Ando à caça do tempo
Na neblina matutina.
Não tenho jeito para poeta
Sou de poucas palavras,
Deixo estar o que está
E ser o que é.
Tuesday, 18 September 2018
Saturday, 7 July 2018
Modo Menor
Modo Menor
Em vez de cair no
sono,
Mergulhei no
escuro,
Num furacão sem
fundo.
O pesadelo
funde-se com o sonho,
E após a noite em
branco,
Arrasto pelas
horas fora,
A fadiga que
invade o dia.
E assim me dissolvo
no nada,
Outrora espaço,
Antes claro e
agora,
Turvo torvelinho.
Ando à deriva no
Mar cinza e
revolto,
Que invade e
tinge o céu de breu.
Tenho o olhar
surdo, sujo,
Os ouvidos cegos,
A mente dormente.
O ruído venceu a
música,
A náusea, a
alegria,
As trevas vazaram
para o dia.
Quero mas não
posso,
Penso mas não sou,
O que era, já não
é,
Sabia e esqueci.
O ontem subtrai o
amanhã,
Vomito o passado,
No presente,
estou ausente,
Declino o futuro.
Queria apagar-me,
reduzir-me a ser,
Apenas respirando,
boiando,
De olhar suspenso
no ar!
Quiçá assim visse
Passar as núvens e
Volver o sol no azul...
Tuesday, 13 March 2018
Passé
Chego aqui e
fico tão esquecida, como o pátio lúgubre nas traseiras pardas deste bairro
ignoto, escondido além da linha-férrea e do arvoredo, nesta terra de província!
Detrás das
vidraças, no rés-do-chão às escuras, adivinho o olhar, por vezes vigilante, por
vezes alheio, do mestre que me aguarda.
Vencendo a indecisão, abro a porta de entrada e, com um cumprimento contido à figura sisuda que assoma ao fundo do corredor frio, deponho o saco no cadeirão vetusto a cheirar a bafio.
Vencendo a indecisão, abro a porta de entrada e, com um cumprimento contido à figura sisuda que assoma ao fundo do corredor frio, deponho o saco no cadeirão vetusto a cheirar a bafio.
Vou a falar
com os meus botões: absorta em considerações, tenho, de me preparar, por
inconciliável que seja, para as surpresas da hora que se segue!
Nunca sei bem
com que contar, que me reserva a aula, como me vou sair... Tanto acho que desisto,
como me digo que não posso levar o mestre à letra!
Há aulas em que, como na escola, o que ele diz entra por um ouvido e sai pelo outro! Senão, nunca
mais voltava!...
Quem esquece, não envelhece, lá reza um adágio!
E ao final de
cada lição, inexplicavelmente, a reverência nobre e atenta com que o mestre me
despede, lá o absolve sempre de tudo...
Empertigado,
o mestre senta-se no cadeirão do corredor, calçando os sapatos maleáveis e
gastos. Não diz palavra; penso que pensa
que não é preciso...
Também não me apoquenta. Ao menos, o silêncio não mente
facilmente! Mas o mestre tem muitos quês, muitos senãos, os seus dias sim, e dias não.
É imperioso e dado a caprichos; diz que
é da profissão, ou talvez da nação...
Já tenho
dado com ele ali, sentado no sofá, o seu olhar escuro, deposto algures no
passado.
Assim, de queixo apoiado na mão, perde um pouco a soberba e, na sua calvície
e sombra, parece mais velho, resignado, algo cansado; não sei se de mim, do presente
ou futuro, ou simplesmente, de tudo... Talvez por isso, ou devido à escuridão, tenha
levado tempo a detectá-lo nos cartazes e fotos de outrora que são o único
adorno, o único cuidado posto no corredor inóspito!
Entro no
vestiário farrusco e fecho a porta atrás de mim, o mestre desce os degraus para
a aula...
Enquanto me apronto, irrompe da sala ao lado uma música
rodopiante, estonteante e inconfundivelmente russa. Com ela, o presto tamborilar
de passos no chão, sugere os desenvoltos arabescos da coreografia
desenfreada que o mestre enceta... só falta arejar o rançoso corredor com
infindáveis piruetas!
Naqueles singulares
momentos mágicos de bravura, decerto que a escola, o bairro, a cidade e tudo o
que a transcende, se transforma num enorme cenário cintilante...
Está no centro
do universo e o tempo revolve até aos dias em que o mestre bailava entre
estrelas cadentes, nos palcos do mundo!
A menos que a arte lhe dê mais pernas,
com tantos passos que bicam o soalho, decerto que o solista tem companhia secreta!...
Desconfio assim que, feitos com ele, por fátuos momentos, os demais bailarinos dos cartazes do
corredor se escapam para o palco!
Intrigada,
abro sorrateiramente, a porta do vestiário, a ver se apanho uma fracção do
efêmero espetáculo, ao menos de esguelha, através do espelho...
Mas qual quê!...
Mal transponho o vão da porta, tudo se esfuma, fica tudo parado e quedo, como
se nunca tivesse sido!
O corredor tumular e os astutos bailarinos, imperturbáveis
como marionetas, lá no quadro, nunca se descaem!
O mestre aguarda-me quedo, altivo
e impassível como sempre, no canto da sala, de costas para o espelho e mão
pousada na barra.
Não sei se, sob o nariz torcido, lhe desvendo afinal, um trejeito
de humor no lábio embicado...
Tuesday, 13 February 2018
Não Senhora!
Em criança, certas senhoras
Criam agradar-me e diziam:
“Sim senhora, estás quase uma senhora!”
E eu, queda e algo arreliada,
Pensava cá com os meus botões
Que tinha de estar de atalaia,
Pois não queria ficar como elas!...
Tinha de as cumprimentar,
Já se vê!
Sabiam todas a creme...
Uma delas, de voz penetrante,
Mal eu lhe chegava a cara,
Descarada, beliscava-me
As bochechas com firmeza!
Andavam de mise
Tufada e laca
Tufada e laca
Maquilhadas,
Aperaltadas e cheirosas,
Muito parecidas,
De óculos de sol
Tipo mosca,
Tapando-lhes o olhar!
No Inverno, bem abafadas, tolhidas.
De saltos altos,
Caminhar importante,
Empertigadas na roupa justa,
Pregadinhas,
Não podiam despentear-se, nem sujar-se!
Com tais poses e indumentárias,
Não eram para se
Sentar no chão,
Correr, pular
Andar de baloiço,
Triciclo, bicicleta,
Andar ao vento e chuva,
Dar mergulhos no mar,
Fazer castelos na areia,
Bolos de lama!
Não eram pessoas
Para brincadeiras e
Nem sequer queriam
Que saltasse nas poças de água!
Se ao menos gostassem
De bonecos,
De fazer desenhos, pintar,
Inventar histórias!...
Mas não...
É que nem pasmar podiam!
Eram indiferentes a tais ninharias.
Não se entretinham com miudezas,
Não reparavam na a poeira a dançar
Ao sol que entra pela janela,
Nos cortinados levantando-se
Na sala, com a corrente de ar,
A ouvir a chuva cair....
Em Lisboa, viam as montras da Baixa
Admiravam tecidos, fazendas, vestidos.
Cuidavam conversar, entre amigas!
De cozinha, dos filhos
Diziam “Esta criança não come nada!”
“Ai, que frio! Não achas?”
“Ai sim? Que maçada!...
Ai, não? Ah, pois!
Repetiam elas todos os dias
Desinteressantes,
Sem graça, sem filosofias.
E eu na minha inocência,
Quase cria que as senhoras, coitadas,
Tinham nascido ou ficado
Assim, já muito cedo,
Vestidas e arranjadas e tudo
Enfadonhas,
Não por querer, claro,
Mas sei lá porque artes
Ou triste engano do passado!
Algumas, moderadamente interessadas,
Inquiriam "Já andas na escola?
Tens boas notas?
Gostas do colégio?"
Eu sorria, anuía mas pensava “Não!”
Outras diziam
“Então? já sabes o que queres ser,
Quando fores grande?”
“Eu!” pensava...
“Que pergunta!” Cismava e continuava
“Eu!... Acaso não chega??...
Não está bem, ser quem sou?
Terei eu de fingir ou de me desfazer
Noutra que não sou?...
Numa senhora destas, talvez?”
Nã... eu cá... não, senhora!
Monday, 12 February 2018
Dormir após de Acordar
Livro caído na almofada, entre revistas,
Enrolada em
mantas,
Dormir tardio, depois de acordar,
Dormir tardio, depois de acordar,
É do melhor que
me podem dar!
Sono lento, morno
sopor, sono ciente,
Cinzento, zonzo, um gozo!
Cinzento, zonzo, um gozo!
Brando dormir,
passando pelas brasas,
Dormitar, só devagar.
Dormitar, só devagar.
Hora sem rumo,
sem prumo!
Tudo assenta, pousa, repousa...
Olhos pesados, densa
mente, muda,
Fosca, néscia, dormente, demorada,
Fosca, néscia, dormente, demorada,
Seu céu, é o breu lá de fora!
Entre Sábado e
Domingo, descuido o ontem,
E, entregue ao
agora,
Adio o dia que pode esperar!
Adio o dia que pode esperar!
Wednesday, 7 February 2018
Nespereiras
Tenho muitas nespereiras no meu passado.
Sob suas copas andava de triciclo, pisando as folhas grandes e
quebradiças que cobriam os caminhos no pátio detrás de casa da minha avó.
Mal destrancava e transpunha o portão tosco e rangente do pátio, fechava a porta ao trânsito e bulício da praça.
Ali dentro, queda, na rampa calcetada, podia ouvir quem passava lá fora na
travessa, sem que soubessem que eu ali parava...
Era um pátio secretamente subtraído ao olhares vigilantes dos adultos, imunes
às pequenezas que eu tanto estimava e a certas crianças caprichosas que me
apareciam na praia; a sacristã que ali morava, sorria com bonomia e nunca
ralhava.
O sino rústico e solarengo da igreja ali ao lado, marcava pacientemente o
passo daquelas horas estivais e silenciosas.
Ali sentada, à sombra da folhagem escura contra o céu azul, descalçava as
sandálias à socapa e esfregava os pés no degrau fresco da porta de entrada, fitando distraída, os coelhos e as galinhas a pitar na capoeira. Lugar
abrigado, entre muros altos, uma oficina esquecida detrás de vidraças, ao lado,
a arrecadação de cavacas. Conhecia de cor a temperatura, os odores e acústica de cada recanto daquela catedral
de nespereiras que eu revisitava incessantemente. De pirolito numa mão, a
outra, manobrando o guiador do triciclo de madeira encarnado, pedalava
distraída, cismando pelas tardes mornas afora, do verão já avançado.
A outra nespereira era mais solitária, sem cerimónias!
Com a sua folhagem vaidosa, roçava a varanda do meu quarto, onde dispersava
prodigamente os seus frutos de Junho. Estudava, ou escrevia pela noite
dentro, de janela aberta para os céus largos e estrelados, azuis escuros, como o Tejo
nocturno; do outro lado do vale, Constância repousava alva, ao relento.
De quando em quando, avançando descalça pela tijoleira morna da varanda,
empoleirava-me no escadote ao lado da árvore e colhia as nêsperas mais à mão. Algo
ásperas, como seu nome, mas aromáticas; sorvia o néctar daqueles frutos dourados e a polpa escorria-me entre os dedos e pelo punho abaixo, desfazendo-se,
ali, em verão puro.
Monday, 30 January 2017
Trampa de Ditaduras
É com certo cinismo que olho um boa parte das pessoas indignadas com Donald Trump.
Refiro-me àquelas pessoas reacionárias, algumas benévolas, secreta ou abertamente saudosistas dos tempo da velha senhora. Falo dos simpatizantes de Salazar ou Franco que minimizam a malvadez do fascismo, de partidos extrema de direita, movimentos populistas e grupos neo-nazis, como se, por algum motivo insondável, estes fossem menos perigosos, sinistros e perversos que as brigadas vermelhas, os partidos e ditaduras comunistas, como a soviética, a chinesa ou a cubana... Cheira-me que aquelas pessoas pensam ou pensavam assim, porque o fascismo nunca afectou o seu bem-estar, nem lhes retirou privilégios, nunca as perseguiu e, se tratou alguém imerecidamente, eles não deram por nada... A extrema direita não os ameaça; nutriam a esperança de que ela nunca fizesse mal ao lado em que se achavam... Tais reacionários, chamam “grandes homens” a Salazar, Franco ou Pinochet, sob o pretexto de que, para fazer “grandes obras”, era preciso sacrificar muita gente.
Pois esses saudosistas dos tempos da velha senhora que agora muito se escandalizam com Trump, lembram os alemães que, antes da Segunda Guerra, elegeram Hitler mas que depois, néscios ou afectando inocência, se espantaram, com o monstro que tinham no poder e com as consequências apocalípticas da sua acção!
Esses reaccionários estão chocados com o boçal do Trump mas pensam afinal como ele, não reconhecem as semelhanças de Trump com a tacanhez de Salazar e Franco, com o grosseiro do Hitler e as bestas dos SS, nem com a brutalidade desalmada de Lenine ou Estaline. Essas pessoas, como Trump, confundem árabes com muçulmanos e todos eles com terroristas. Essas pessoas podem não ter participado nas eleições americanas mas nutriram a besta, alimentaram o espírito do tempo e ajudaram-no a subir ao poder.
O meu Pai dizia que todas as ditaduras eram más mas que o fascismo, assentando na economia aberta e de mercado, pelo menos, não se podia fechar e carregava assim consigo a semente da sua própria corrosão... Se esta lógica estava certa, Trump, com o o proteccionismo que defende, já nem essa semente carrega! Oxalá a economia liberal e os valores de liberdade e democracia tão queridos aos americanos, não pereçam e lhe furem o esquema!
As ditaduras sempre foram más, aterradoras! de direita, ou de esquerda, tanto faz!
F. Pedrosa Eidmann
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